O "Sobrinho Manager": Por que saber postar Stories não é estratégia (e como não quebrar sua empresa)
- Thais Cunha

- 4 de abr.
- 3 min de leitura
Na loja de autopeças do Luís, ninguém sabia direito como funcionava o Instagram. “Frescura de gente moderna”, dizia ele, enquanto limpava as mãos de graxa num pano mais sujo que consciência de político.
Até que um dia, o filho de um cliente mandou a real:
— Pô, tio, não tem página pra eu ver se tem esse filtro de óleo aí? Luís, com a paciência de quem já montou dez motores no sol, respondeu:
— Não, passa aqui no balcão.
O moleque nem pensou:
— Ah, deixa... vejo no Mercado Livre então. É mais prático.
Aquilo doeu mais que martelada no dedo.
Naquela noite, no churrasco da família, Luís deu o bote. Olhou para o sobrino, o Enzo. Um adolescente com um moletom três vezes maior que ele, um fone de ouvido que parecia uma nave espacial e o olho grudado na tela.
— Ô, Enzo... tu manja dessas paradas de "Insta", né?
— Pô, tio... óbvio. Sou cria.
— Quer cuidar do Instagram da firma? Te dou uns trocados.
E assim nasceu o “Sobrinity Manager”.

Os primeiros posts foram... interessantes. Uma selfie do Enzo na frente das caixas de embreagem com a legenda: “Trampo pesado hoje. O pai tá on! 🚀🔥”.
Um Story com um funk proibidão estourado no fundo e o texto: “Só os amantes de motor! 💥”.
Um Reel em câmera rápida trocando um radiador... com filtro de orelha de cachorrinho e voz de esquilo.
Luís não entendia nada, mas achava que era o novo Elon Musk do bairro.
— Posta mais disso aí, tá moderno!
— Relaxa, tio. O engajamento tá insano. Tá bombando.
Uma semana depois, Luís perguntou o que importava:
— Vendemos mais?
Enzo deu aquela hesitada clássica: — Então... vendas é relativo, né? Mas ó: 86 curtidas no vídeo do radiador!
— E curtida paga a conta de luz, Enzo?
— Tio, você não entende o algoritmo. O algoritmo é Deus.
— E o algoritmo compra amortecedor?
— Sei lá, mas olha esse sticker de foguete que eu coloquei!
Aí veio o ápice. Um cliente entrou na loja e falou:
— Vim pelo meme do Uno com escada em cima. Luís abriu um sorriso de orelha a orelha. Finalmente, o "marketing" funcionou.
Até que o cara completou:
— Quero levar aquele kit de freio que tava no post. Aquele com "Tudo com 70% de desconto e pague em tres anos".
Luís ficou branco. Ele não autorizou porra nenhuma.
Ele não sabia como apagar o post.
Ele não tinha a senha da conta porque o Enzo criou no e-mail da escola. N
inguém respondia os comentários, as DMs estavam um lixo e a marca tinha a identidade visual de um acidente de trânsito.
O Enzo durou dois meses.
Depois foi pro acampamento de férias e deixou o tio no vácuo, com a conta hackeada por um robô de criptomoeda.
Luís finalmente contratou uma agência.
Na primeira reunião, ele implorou:
— Pelo amor de Deus, sem filtro de cachorrinho. Mas também não quero que seja um velório.
— Qual é o seu objetivo de comunicação? — perguntou a executiva. Luís ficou mudo. E ali, caiu a ficha.
🔍 O que o Enzo não te contou:
Postar não é comunicar. Subir qualquer coisa sem critério é só poluição visual.
Saber usar a ferramenta não te faz profissional. Eu sei usar um bisturi, mas você não ia querer que eu operasse seu apêndice, né?
Marca exige coerência. Se sua empresa fala como um adolescente de 15 anos e vende para mecânicos de 50, alguém vai sair confuso.
Métricas de vaidade não enchem o tanque. Curtida é legal, mas o que mantém a porta aberta é conversão.
📋 Checklist pra saber se você precisa de ajuda (e não do seu sobrinho):
✅ Seus posts têm um "porquê" ou são só "pra não ficar parado"?
✅ Você mede resultados reais ou fica contando coraçãozinho?
✅ Seu sobrinho sabe o que é Persona ou ele acha que é um jogo de PlayStation?
✅ Você tem a senha da sua conta ou ela é refém de um adolescente?
✨ Reflexão final:
Contratar alguém só porque é "jovem e entende de rede social" é tipo escolher um cirurgião porque ele assistiu todos os episódios de Grey's Anatomy.
Comunicação é estratégia. O resto é só filtro de gatinho.
Gostou desse conteúdo? Na Sneety, a gente não usa filtro de orelha, a gente usa estratégia que traz cliente.




Comentários