top of page

5 Chefes, 0 Decisões: O Limbo Eterno do "Vou Ver com o Pessoal"

  • Foto do escritor: Thais Cunha
    Thais Cunha
  • 29 de mar.
  • 3 min de leitura

A agência já tinha mandado a proposta. Estava tudo lá: cronograma de posts, conceito criativo, três artes, sugestão de tráfego pago e até as hashtags que ninguém lê. Tudo bonitinho, num PDF chamado "Campanha Dia do Cliente – V2_FINAL_AGORA_VAI.pdf".


Só faltava um detalhe: o "ok".

Aí veio a mensagem da Carla, a nossa ponte com o abismo: — Gente, eu vi aqui e amei! Mas ó, tenho que falar com o resto do pessoal.


5 Chefes, 0 Decisões: O Limbo Eterno do "Vou Ver com o Pessoal"

"O resto" era um conselho deliberativo digno de ONU, composto por:


  1. O sócio fundador (que ainda usa o Internet Explorer).

  2. A filha do sócio (que fez um curso de "influencer" no final de semana).

  3. A contadora (que também é RH, psicóloga e fiscal de cafezinho).

  4. O novo gerente comercial (que quer "disromper" até a marca do papel higiênico).

  5. A esposa do sócio (que não pisa na empresa, mas manda áudio enquanto decide se coloca canela ou não no bolo de fubá).


Passou uma semana. Depois duas. Na terceira, o feedback chegou em forma de sete áudios de WhatsApp, um mais esquizofrênico que o outro:


  • "Tá muito sério, põe mais 'festa', mais alegria!"

  • "Gente, cuidado. Somos uma empresa tradicional, não quero palhaçada."

  • "Não entendi esse conceito. Não dá pra ser mais... direto? Tipo: COMPRE?"

  • "Achei que falta criatividade. Sabe o Cirque du Soleil? Queria algo assim."

  • "E se a gente fizesse um sorteio de um iPhone 4 que tá na gaveta?"

  • "Por que não usamos aquele logo de 1998 que o vovô desenhou no guardanapo?"

  • "Meu filho de 12 anos disse que no TikTok a moda agora é dançar o 'pintinho amarelinho' ao contrário."


A agência, já à base de Rivotril, refez tudo. Ajustou, adaptou, exorcizou a arte. Mandaram a Versão 4. — Agora sim! — disse a Carla. — Só falta o seu Raul ver. Ele tava em Dubai jogando golfe.


O Seu Raul voltou. Olhou a campanha por 1.5 segundo e soltou a bomba: — Não me deu 'tesão'. Podemos fazer algo mais disruptivo? Tipo o Elon Musk?


Era 12 de setembro. A campanha era pro dia 19. O planejamento vinha desde junho. E aí a Carla — com olheiras que cabiam um balde e a voz de quem desistiu da vida — mandou o último áudio: — Gente... deixa pra 2027. O clima pesou aqui, o pessoal tá confuso... melhor não postar nada.


🔍 O que a gente aprendeu (ou deveria ter aprendido):


  • Campanha não é consórcio: Não se aprova por comitê, se aprova com critério.

  • Opinião não é decisão: Quanto mais gente sem cargo definido dá palpite, mais a ideia vira um monstro de sete cabeças.

  • Autoridade zero = Resultado zero: A falta de um "dono da bola" trava o jogo.

  • Velocidade relativa: A agência nunca vai ser mais rápida que a indecisão do cliente.


📋 Checklist antes de contratar uma agência (Pra não passar vergonha):


Quem dá o martelo final? Nome e CPF, por favor.

Existe processo ou é "opinologia freestyle"?

As decisões saem em tempo útil ou só depois que o feriado passou?

O pessoal entendeu que "eu não gostei" não é argumento técnico?

Vocês querem confiar no profissional ou só alguém pra formatar seus delírios?


🪞 Reflexão Final:


Campanha publicitária não é votação de Paredão de Big Brother. Comunicação precisa de bússola, não de uma roda de mate com pitaco da família inteira. Se ninguém decide, o trabalho morre no berço. E a culpa? Nunca é da campanha.


Dê poder a quem entende. E deixe o trabalho nascer. Porque o que não se aprova... vira lenda, não vira venda.

Comentários


bottom of page