Os números não mentem (mas a gente finge que não vê)
- Thais Cunha

- 20 de jan.
- 3 min de leitura
(Ou: Como tomar decisões com o estômago e ignorar completamente a planilha)
A Marcela tinha uma confeitaria. Bolos, pudins, alfajores. Um verdadeiro festival de glicose e gratidão.

Ela tinha bom gosto, mãos de fada e um feed no Instagram que parecia uma revista de luxo. Os comentários eram aquela loucura: "Maravilhoso!", "Abre uma loja!", "Marce, você Os Números Não Mentem (mas a gente finge que não vê)é um acontecimento!".
A Marcela, embriagada pelo ego digital, resolveu "se jogar". Alugou cozinha, comprou forno industrial, contratou uma assistente, fez panfleto, banner e etiqueta com logo dourado. Até aí, um sonho, digno de comercial de margarina.
Até que a realidade bateu na porta. E o nome dela é: Matemática.
— Quanto custa produzir um cheesecake? — perguntou uma amiga, daquelas que entendem de negócio (e que a gente geralmente quer evitar). — Hum... uns 80 reais. Eu acho. — Tem certeza? — Ah... por aí. Mais ou menos. — Você incluiu o gás, a luz, o seu tempo, a caixinha fofa com laço de cetim, a taxa do entregador? — Ai, amiga, não. Mas eu vendo horrores, tá? Relaxa.
Spoiler: Vender não é a mesma coisa que ganhar.
A Marce vendia muito. Mas gastava muito mais. Quando finalmente sentou para olhar o extrato, descobriu que, a cada torta entregue... ela praticamente pagava para a pessoa comer.
A cara dela ficou um poema trágico. "Como assim, se eu tenho dez pedidos por dia?!" Simples: ela não sabia calcular o custo real, nem a margem, nem a rentabilidade de cada doce.
Ela nunca tinha se perguntado quanto precisava vender só para pagar o aluguel. Nem quanto podia pagar para a assistente sem ir à falência. Nem se precisava subir os preços ou parar de vender o que dava prejuízo — mesmo que fosse o "queridinho" dos seguidores.
A Marcela não era boba. Ela só estava apaixonada pela própria ideia. E a paixão é cega, principalmente quando o assunto é conta bancária.
Aí caiu a ficha: Fazer algo rico não é o mesmo que ficar rica. Fazer com amor não substitui fazer com a cabeça. E ter muitos likes não paga o boleto do MEI.
Ela sentou com uma planilha. Chorou um pouquinho (faz parte do processo). Refez as contas. Cortou o que não rendia. Subiu os preços. Calculou as margens. E, pela primeira vez, tomou decisões baseadas em números, não em batimentos cardíacos.
🔍 O que aprendemos (e ninguém nos contou no curso de cupcake):
O coração cria, mas a calculadora é quem manda.
Vender não é sinônimo de lucro. E crescer sem controle é o jeito mais rápido de quebrar com estilo.
Não existe preço "no olhômetro". Isso é como dirigir numa neblina sem farol.
Finanças não se delega totalmente. Você tem que entender seus custos, mesmo que tenha o melhor contador do mundo.
Sem números, não há estratégia. Há apenas impulsos e orações.
📌 Checklist para saber se seus números trabalham para você ou são só decoração:
✅ Você sabe exatamente quanto custa cada produto ou serviço que oferece?
✅ Estão inclusos nesse custo: seu tempo, luz, embalagem, taxas e impostos?
✅ Você sabe qual é o seu lucro real por venda?
✅ Conhece seus gastos fixos e quanto precisa faturar por mês só para não ficar no vermelho?
✅ Você usa esses dados para decidir preços e promoções?
✅ Seu contador te ajuda a entender o negócio ou só te manda guia de imposto para pagar?
🧠 Lições finais:
⚠️ Não conhecer seus números é como pilotar um avião com o painel desligado. ✅ A intuição é ótima para criar, mas péssima para pagar contas.
💡 Se seus produtos são lindos, mas não dão lucro, você não tem um negócio: você tem um hobby caríssimo.
(Conto 05 do livro "Contos de marketing para PMEs")




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